Avançar para o conteúdo principal

“«A Enferma e o Ladrão», de Diniz Cayolla Ribeiro”, por Associação Cenas&Limitadas.

A obra de Diniz Cayolla Ribeiro apresenta-nos a história de uma mulher que, por infortúnio do destino, acaba por ficar tetraplégica após o parto. Depois de 30 anos em estado vegetativo, as sensações de inutilidade, raiva interior e enfado com o seu estado, ganham força no seu íntimo, acabando por descontar tal frustração na sua filha, agora, sua cuidadora, que se vê confrontada com as acusações pelo estado em que a sua mãe se encontra e a obrigação de cuidar da mesma. A tensão entre ambas ganha ainda mais dimensão pela incapacidade de a filha realizar o pedido da enferma de acabar com a sua vida. 

Numa noite a casa é assaltada e a mãe, sozinha, acaba por se deparar sem possibilidade de defesa contra o ladrão. Aqui, o “óbvio” prega-nos uma partida e o crime acaba por se transformar num encontro inesperado. Entre jogos de manipulação, negociações e debates morais, a questão de quem sai beneficiado com toda aquela discussão mantem-se em suspenso. 

Como já referido, a dramaturgia da peça foi concebida por Diniz Cayolla Ribeiro e a encenação ficou a cabo de Miguel Vieira. 

Personagens embrenhadas em jogos de persuasão e dilemas morais que até o próprio espetador, a certo momento, sente-se igualmente afogando em tal maré. 

Um espetáculo dinâmico – muito graças à natureza textual – que cria empatia com público. Temas importantes e sensíveis no contexto social atual que ganham espaço de discussão e reflexão através de uma linguagem artística. 

Achei curiosa a iniciativa, mas, pessoalmente, não me conectei com espetáculo – cada espetador é como é. 

Aproveito este momento para partilhar uma perspetiva que fiquei a pensar durante algum tempo após assistir à peça: 

Qual a relevância da coreografia? Nesta pregunta retórica não questiono a opção de um momento físico naquele exato momento, nem a qualidade da coreografia de Inês Aguiar. Refiro-me à relevância daquele estilo de coreografia para aquele exato momento. Qual a pertinência daquela sequência? Algo mais curto e com movimentos mais simplificados e intensos não criaria maior efeito, tanto em cena, como no público? Esse foi um momento em que a “estranheza” me devorou – não no sentido desejado. 

Em suma, destaco a capacidade do grupo de encher uma sala de espetáculos fora do roteiro tradicional de casas de espetáculo da região, como vi na sessão em que estive presente. Movimentos graduais que ajudam a desenvolver a “cultura de assistir espetáculos” que tanto discutimos, desde mesas de cafés a colóquios.

Comentários