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Mensagens

A mostrar mensagens de outubro, 2023

“iMaculada”, por Marionet.

A Marionet, conhecida por cruzar Teatro e Ciência, homenageia Carl Djerassi, químico farmacêutico, romancista e dramaturgo austríaco, um dos responsáveis pela criação de um comprimido oral que revolucionou o século passado, a pílula. Tema central deste espetáculo, este medicamento possibilitou às mulheres obterem um maior controlo dos seus corpos. No entanto, como diz o povo, “nem tudo são rosas”, sendo causador de inúmeros efeitos secundários indesejados. Qual a sua função? Como é utilizada? É bem vista na sociedade? Que consequências acarreta? Outros temas discutidos nesta produção, são a inseminação artificial, o aborto e os direitos da mulher. De que forma uma família contemporânea lida com estes assuntos? O texto e a encenação desta produção estiveram sobre coordenação de Mário Montenegro. Um espetáculo intimista, profundo e capaz de criar um curioso espaço de reflexão. Tive a estranha e singular sensação de que os interpretes eram gladiadores no centro da arena e nós os e...

“Ti Coragem & Filhos Lda.”, por Teatrão.

O Teatrão apresenta-nos a sua mais recente criação. Desta vez, tem como inspiração uma das peças mais emblemáticas de Bertold Brecht, «Mãe Coragem e os seus Filhos». Tendo em conta aos terríveis conflitos, que sempre existiram, mas estão a ganhar cada vez mais mediatismo nos tempos atuais, este projeto tem como intenção expor ao público algumas das consequências que surgem ligadas as guerras. A partir da história de Ti Coragem, observamos a que nível o Ser Humano pode chegar, quando, em situação de necessidade, as forças da manipulação e aproveitamento do outro, para proveito próprio, estão em jogo. Como diz o povo, “quem não sabe vender, fecha a loja”, mas Ti Coragem sabe vender, e bem! Mal sabe ela que para conseguir alcançar os seus objetivos, terá de apostar bem caro... A peça teve como responsável pela tradução António Sousa Ribeiro. Já a dramaturgia foi concebida por Jorge Louraço Figueira e Marco Antonio Rodrigues, com encenação de Marco Antonio Rodrigues. Uma apresentação...

“Alcool Club e Ornatos Violeta”, na Festa das Latas e Imposição de Insígnias 2023, Coimbra.

Organizada anualmente pela Associação Académica de Coimbra (AAC), este evento celebra a receção dos novos estudantes ao ensino superior, em Coimbra. Contando com uma programação de vários dias, os mais aguardados pelos estudantes são os concertos que acontecem no recinto da Praça da Canção, à noite. Como aluno em Coimbra, não poderia faltar pelo menos a um dia desta celebração. Neste caso, escolhi o quarto dia de concertos (dia 7). Existiram outros grupos a apresentar nesse dia, como a Estudantina Universitária de Coimbra e As Fans, no entanto, canalizei a minha atenção para os dois grupos “cabeças de cartaz”, Alcool Club e Ornatos Violeta. Dois grupos de diferentes estilos musicais entre si, que partilhavam o meu desejo de os conseguir ver e ouvir ao vivo. Consegui realizar esta vontade e devo confessar que não desapontaram nem um pouco. Os sons de hip hop acompanhados por melodias influenciadas pelo jazz dos Alcool Club, substituídos pela energia e melodias fantásticas de rock al...

“PEQUENO PROBLEMA”, por Dário Guerreiro (Môce dum Cabreste).

“Stand-Up Comedy”, ou também designado por “Humor de Cara Limpa”, é um género de espetáculo cómico, geralmente executado por um único artista em palco. Uma espécie de monólogo que quebra constantemente com a “quarta parede”. Os seus textos podem ser construídos a partir dos temas mais simples aos mais complexos da nossa sociedade, sempre repletos de crítica social e muito humor. Não é a primeira vez que assisto a um espetáculo deste género, mas do artista Dário Guerreiro foi certamente a primeiro. Destaco a minha admiração pelo trabalho deste artista. Gostei do jogo de palavras que utiliza para comentar os temas mais “quentes” do nosso dia a dia. A incorporação musical foi interessante. O ponto que menos gostei, foi a opção de utilização, um pouco excisava, da componente sexual para criação do momento “piada”. Acho que com um maior jogo linguístico chegaria ao mesmo fim. (Primeira publicação a 10 de outubro de 2023, em  https://www.facebook.com/itsjoaojosesilva/ )

“ERA UMA VEZ DOIS”, por Companhia NAVIO.

Quem é que não gosto de uma boa história? A Companhia NAVIO, propõe-se a “contar uma história” relembrando os tempos áureos da época medieval. Contada em rima, a personagem BOBO, direciona-nos pela estrada ziguezagueante do enredo, utilizando o sua voz, corpo e manipulação de objetos. “A brincar, se dizem as verdades”, já diz o povo. Ou o BOBO, neste caso… A conceção textual esteve a cabo de Catarina Chora e Inês Sincero, com direção de Filipe Correia e Miguel Figueiredo e interpretação de Jaime Castelo-Branco. Diverti-me imenso com esta peça. Um texto muito interessante com um trabalho clownesco por parte dos integrantes em cena muito bom. A utilização das músicas e a incorporação do público na cena foram incrementos especiais. A verdadeira essência: RUA, ATORES e PÚBLICO. (Primeira publicação a 6 de outubro de 2023, em  https://www.facebook.com/itsjoaojosesilva/ )

“Cigarreiras”, por ContraProducións (ES).

A partir do romance de Emilia Pardo Bazán, “La Tribuna”, em “Cigarreiras”, são nos contados testemunhos da crise política de 1868-1873, com a queda da Dinastia de Borboun, à proclamação da I República, em Espanha, pela perspetiva das trabalhadoras do tabaco de Coruña. Quais foram as histórias destas mulheres? Que males sofreram com esta transição? De onde veio essa força para lutar? Este espetáculo teve Cándido Pazó como responsável pela sua adaptação e encenação. Foi possível assistir a este espetáculo, graças à Mostra de Teatro Galego de Coimbra, organizada pela A Escola da Noite e a Cena Lusófona. Definitivamente, esta peça ficará marcada na minha memória durante muito, muito tempo. Um esforço incrível de toda a equipa. Cenário, luz, música, figurinos, adereços muito bem selecionados. Quero destacar o fantástico trabalho de todas as atrizes. Interpretações impecáveis com a “verdade” (como se diz no Teatro) a saltar-lhes pelo corpo fora. Uma energia poderosíssima! (Primeira p...

“Arraianos”, por Sarabela Teatro (ES).

Em sequência, integrando a Mostra de Teatro Galego de Coimbra, organizada pela Escola da Noite e a Cena Lusófona, «Arraianos» é uma peça colocada em palco pela companhia Sarabela Teatro, a partir de uma das obras mais importantes da literatura galega. Trata-se de uma adaptação da prosa original de Xosé Luís Méndez Ferrín, por Fernando Dacosta e Ánxeles Cuña Bóveda, com encenação de Ánxeles Cuña Bóveda. (ARRAIANOS/AS – natural da fronteira ou vive perto da mesma) Com base em histórias do sobrenatural, esta peça relata-nos dois momentos distintos que partilham a luta das personagens em conflitos mundanos, aliados à imposição de elementos espirituais traiçoeiros, num local onde nem a proteção divina tem efeito. Quero realçar o trabalho muito bom dos intérpretes, mais especificamente nos momentos musicais (tanto cantados com a criação de ambiente) e nas movimentações e explorações corporais. Gostei imenso dos elementos plásticos. (Primeira publicação a 1 de outubro de 2023, em ...

“«O Porco de Pé», de Vicente Risco”, por Excéntricas Producións (ES).

Integrando a Mostra de Teatro Galego em Coimbra, organizada pela Escola da Noite e a Cena Lusófona, este é um dos oito espetáculos que compõem a programação deste festival que tem como intuito o intercâmbio de conhecimentos, ideias e práticas teatrais entre a Galiza e Coimbra. Esta peça é uma adaptação da novela do escritor Vicente Risco, publicada na primeira metade do século passado. Uma sátira à moda vaudeville que critica a corrupção política da época, refletindo-se perfeitamente nos tempos atuais. Além do mais, cria e justifica uma analogia entre o porco (animal) e a classe burguesa. O trabalho dramatúrgico ficou a cabo de Pepe Sendón e Quico Cadaval. Já a encenação por Quico Cadaval. Uma peça muito divertida e ao mesmo tempo bastante crítica, como que um “abre-olhos” para o contexto político em que vivemos. Um trabalho fantástico de toda a equipa. Cativa o espetador do início ao fim. Afinal, Portugal e Espanha não têm assim tantas diferenças… (Primeira publicação a 29 de ...

"Apresentação da Temporada Artística 2023/2024 do Teatro Municipal Baltazar Dias", no Funchal, Madeira.

Já se passou uma semana desde o seu acontecimento, no entanto, achei por bem deixar um pequeno comentário ao que consegui assistir deste evento. Antes da cerimónia de apresentação, fomos presenteados com a estátua viva “Estátua Baltazar Dias”, uma homenagem do ‘Teatro Bolo do Caco’ ao “poeta cego” que dá nome ao Teatro Municipal e a atuação dos ‘Estrond’ilha’, que fizeram “abanar tudo e todos” com as suas músicas animadas e boa energia. Quanto à programação, para este primeiro semestre, espera-nos algo bastante diversificado, num plano composto por companhias e entidades tanto regionais como nacionais. Para além do destaque da residência “Odisseia Nacional” pelo Teatro Nacional D. Maria II, os temas da preservação da história e da identidade cultural, são pontos bastantes referenciados. Para finalizar, uma “boa vibe” foi a ideia chave para a atuação do ‘Ventania & Amor’, que antecedeu à apresentação do espetáculo de teatro participativo “1515”, por Zacarias Gomes, Sara Cíntia...

“Mulheres de Papel”, por Michelle Caires e Cristina Barbosa.

Tendo por base fundamental a luta pela aceitação e igualdade das mulheres, neste espetáculo são nos contadas as histórias e as problemáticas vividas por quatro mulheres. Quatro mulheres que representam muitas outras em diferentes períodos da nossa história. Uma peça que apela à reflexão e alerta para necessidade de luta constante. Um trabalho criado por Michelle Caires, com composição musical de Cristina Barbosa e dramaturgia e encenação de Ricardo Brito. Destaco a beleza do trabalho realizado com a ligação das três áreas artísticas (dança, música e teatro). (Primeira publicação a 17 de julho de 2023, em  https://www.facebook.com/itsjoaojosesilva/ )

“O INFINITO ESTRANGEIRO”, por OITO – Oficina de Ideias das Terras do Oeste.

Num mundo em que cada vez mais preocupamo-nos, unicamente, com o nosso próprio umbigo, por diversas circunstâncias do meio que nos rodeia, surge a problemática da relação entre o Eu e o Outro. Tendo por base este tópico, a companhia OITO – Oficina de Ideias das Terras do Oeste, no seu mais recente espetáculo, com criação textual de Luís Lobo Pimenta e Ricardo Brito e encenação de Ricardo Brito, utiliza o poder do Teatro, como auxiliador do debate e reflexão, atiçando os espetadores a quebrarem o seu estado passivo no que diz respeito à tomada de decisões. Qual o lado da balança em que estás? Partindo de uma narrativa de relação Mãe-Filho, este trabalho performático procura através de símbolos poéticos desafear os espetadores a encontrarem significados neste quebra-cabeças. Dúvida. Pergunta. Resposta. Um espetáculo que me deu bastante gosto de ver. O clima intimista ali criado, foi uma estranheza satisfatória. Sinto que assistir uma só vez é pouco. Muitas questões ainda não enco...

“«O Homem do Caminho», de Plínio Marcos”, por A Escola da Noite e a Quinta Parede – Associação Cultural.

O ato de “contar histórias” remonta dos tempos mais antigos da nossa civilização, chegando aos nossos dias por inúmeros formatos. Plínio Marcos, foi um dos grandes dramaturgos brasileiros, amante dessa arte. Este, diferencia-se dos demais por contá-las com a maior crueza possível, a partir de perceções e relatos reais de pessoas, que como ele, lutavam pela sobrevivência. Este texto. em monólogo, explora a narração de um estradeiro, que como um saltimbanco, corre de cidade em cidade, apregoando as suas histórias e utilizado a sua inteligência a seu próprio proveito. Misturando momentos de culto, e a libertação dos desejos carnais, procura a sua capacidade de persuasão e metamorfose contra os donos de poder, os “homens prego”. Esta apresentação conta com a adaptação e encenação de José Caldas. Um espetáculo elaborado com excelência. Gostei imenso do trabalho dos intérpretes (Allex Miranda, José Caldas e Juliana Roseiro), o cenário de elementos básicos, mas funcionais e chamativos (co...

“QUORUM”, por Marionet.

Na sua primeira edição, o evento Equality Days, impulsionado pelo projeto EQUAL.STEAM, da Universidade de Coimbra, tem como finalidade sensibilizar a academia e a comunidade circundante, nos temas de integração de raparigas e mulheres nas áreas STEAM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Arte e Matemática) e de desconstruir os estereótipos de género. O programa do evento é composto por diversas performances artísticas para todos os gostos. Desafiada a construir uma peça a partir desta última temática, a Marionet, habituada a cruzar a arte performativa com a ciência, apresenta-nos um projeto, composto por uma equipa com elementos de diversas áreas do conhecimento, não ligadas diretamente ao Teatro, que se reúnem para discutir e refletir os problemas equalitários existentes nas diversas áreas profissionais. O encenador deste projeto é Mário Montenegro. Um trabalho muito interessante, de caráter simples, contudo, bastante eficaz, que faz do palco um local de exposição de factos. Apresenta...

“«Medeia» de Eurípedes”, por Associação Cultural Thíasos.

Numa organização conjunta do Teatro Académico Gil Vicente (TAGV) e os grupos CITAC, GEFAC, TEUC e Thaísos, surge o projeto "Mostra de Teatro Universitária (MTU)", com o objetivo de possibilitar a partilhar do trabalho anual desenvolvido por grupos de teatro académico. A meu ver, uma presença importante, não só na programação deste espaço cultural, como também na programação cultural de Coimbra, pela variedade de peças que apresenta, além da oportunidade que proporciona a novos grupos de poderem tornar público os seus trabalhos e ideias. Já acostumados à dramaturgia clássica, a Associação Cultural Thíasos, dá vida a uma das grandes obras do tragediógrafo grego, Eurípedes. Esta produção conta com dramaturgia e encenação de Arthur Montenegro e tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. Quanto ao espetáculo, gostei da iniciativa de se desafiarem a interpretar um texto destes, contudo, tenho a ideia de que poderiam tê-lo explorado mais aprofundadamente. Certas opções cénicas s...

“HOME”, por Companhia Cris-Is (ES).

A falta de comunicação entre as pessoas é um problema que, cada vez mais, com o passar dos tempos e o evoluir da tecnologia, tem se agravado. Em algum momento das nossas vidas já sofremos de tal, ou fomos causadores. Cristina Solé, a partir deste tema, cria um espetáculo de clown, com direção de Leandre Ribera, na perspetiva de relação marido-mulher, num formato cómico e reflexivo, em parceria com Juan Pablo Luján. Uma apresentação fantástica, que me arrancou imensas gargalhadas. Cheia de elementos e dinamismos, superou completamente as minhas expectativas, que já eram altas. Assistir a esta performance, num jardim, numa tarde de sol, realmente, calhou muito bem! (Primeira publicação a 19 de maio de 2023, em  https://www.facebook.com/itsjoaojosesilva/ )

“Máquina de Encarnar”, por ASTA Teatro.

Um dos objetivos da Arte, passa por desempenhar um papel ativo na luta contra os problemas da nossa sociedade. Um desse meios de ação, dá-se na exposição de situações mais delicadas como sinal de alerta para os seus perigos. Inserido no projeto Deep Acts, a ASTA Teatro cria este espetáculo performático, com encenação de Marco Ferreira, com o intuito de explorar a violência e as contradições presentes nas relações humanas, mais especificamente nas relações de género. Uma peça que nos faz imergir numa realidade sombria. Imagens fortes, ambiente sonoro grotesco, textos que causam arrepios. Tudo estes elementos juntos, criam algo “horrivelmente belo”. Definitivamente, não é um dos meus géneros teatrais favoritos, no entanto, reconheço a qualidade do trabalho e a sua capacidade de transmitir a mensagem pretendida. (Primeira publicação a 19 de maio de 2023, em  https://www.facebook.com/itsjoaojosesilva/ )

“«Ay, Carmela!», de José Sanchis Sinisterra”, por Trincheira Teatro.

Evocando a Guerra Civil de Espanha, José Sanchis Sinisterra, apresenta neste texto, Paulino, antigo artista itinerante de variedades, que se recorda do dia em que viu a sua companheira Carmela ser fuzilada por militares franquistas, num momento de resistência da mesma, após terem, ambos, sido capturados e obrigados a apresentarem-se perante uma plateia composta pelas tropas de Franco e pelos seus prisioneiros. Com a volta de Carmela da “terra dos mortos”, esta surge diante Paulino e, juntos, refazem todos os passos que provieram na morte da artista, relembrando problemas e decisões que os colocaram naquela terrível situação. A Trincheira Teatro, elaborou este espetáculo com direção de Pedro Lamas e interpretação de Diana Narciso e Hugo Inácio, para além, da tradução e adaptação do texto pelos três artistas. Um espetáculo de emoções fortes do início ao fim. Opções cénicas, aparentemente, simples, mas bastante eficazes e uma interpretação incrível. Definitivamente, este espetáculo es...

“Guilhotina”, por José Dias e Afonso Molinar.

A aposta da estrutura artística CEM Palcos, no projeto NOVe – NOVos Tempos NOVas Dramaturgias, tem como objetivo promover, em formato de residências artísticas, a colaboração de 9 dramaturgos e 9 performers (teatro, dança ou música), na criação de 9 micro-espetáculos, com a duração de 9 minutos, para 9 pessoas, repetindo-se 9 vezes no mesmo dia. Ufa… isto é que são noves! Na sua 2º Edição, é nos apresentado o trabalho de Afonso Molinar (dramaturgo) e José Dias (criador e intérprete). Desta criação, surge a ideia de um homem, que se reúne, secretamente, com um grupo de amigos, na tentativa de mudar a rumo da história. Vamos à Revolução, ou não? Um espetáculo que quebra completamente com a quarta parede, dado a oportunidade dos espetadores, realmente, interagirem na ação. Como num jogo, somos confrontados com a ideia de que cada ação, tem a sua consequência. Uma ideia de espetáculo muito interessante, que desconstrói a imagem convencional de peças de teatro. Não só pelo tipo de int...

“Revolution – Título Provisório”, por ASTA Teatro, Baal17, d’Orfeu e Teatrão.

Há já quase 50 anos que o nosso país voltou a ter a democracia como regime político vigente. Abril, mês da liberdade! No entanto, como tudo nesta vida, com a idade, começam a ser percetíveis os problemas estruturais, revelando as suas fraquezas. Agimos agora, ou de um momento para outro, tudo pode descambar. Numa iniciativa de celebração dos 50 anos da Revolução dos Cravos, ao mesmo tempo, a partir do pensamento filosófico de Daniel Innerarity, refletir sobre o desempenho das democracias atuais, quatro companhias teatrais (ASTA Teatro (Covilhã), Baal17 (Serpa), d’Orfeu (Águeda) e Teatrão (Coimbra)), uniram-se na criação deste espetáculo, com texto de Tiago Alves Costa e encenação, dramaturgia e cenografia de Gonçalo Guerreiro. Um espetáculo muito interessante a todos os níveis. Mensagem bem estruturada e esclarecedora, movimentações dinâmicas com o cenário e adereços, constante interação com o público, imagens fortes, composição musical marcante, entre muitas outras caraterísticas....

“V Mercado Medieval Pedro e Inês de Castro”, em Eiras, Coimbra.

Como era viver na época medieval? Acredito que todos nós, em algum momento das nossas vidas, fizemo-nos esta pergunta. Felizmente, para os mais curiosos, essa possibilidade é real! As feiras medievais e recriações históricas, possibilitam-nos ter um “cheirinho” dessa experiência. Já na sua 5ª edição, o Mercado Medieval Pedro e Inês de Castro, decorre entre os dias 29, 30 de abril e 1 de maio, no Largo do Terreiro da Fonte, em Eiras, Coimbra, convidado todos os entusiastas a imergirem nesta viagem temporal, acompanhada de comes e bebes e animação diversa. Gostei muito de ver a forte participação da comunidade local no evento. Acredito que é uma ótima iniciativa, tendo grandes possibilidades de crescimento. Contudo, considero que deveriam ter mais atenção nos figurinos que os participantes da feira usam, pois, a discrepância de épocas, cria um estranhamento. (Primeira publicação a 29 de abril de 2023, em  https://www.facebook.com/itsjoaojosesilva/ )

“Ainda Marianas”, por Catarina Rôlo Salgueiro, Leonor Buescu/Os Possessos.

1972. Nesse ano, em Portugal, os dias ainda eram controlados pelo Estado Novo (mal se sabia que esses tempos estavam a chegar ao seu término). Na mesma época, é publicado o livro «Novas Cartas Portuguesas» por Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa. “As Três Marias”, como ficaram conhecidas, têm como inspiração o romance epistolar, «Cartas Portuguesas», publicado no séc. XVII, posteriormente, atribuído à freira Sóror Mariana Alcoforado. Incorporando vários tipos de fragmentos, como cartas, poemas, ensaios, entre outros, criticam a condição da mulher e o poder do patriarcado católico, enquanto denunciam situações relacionadas à repressão ditatorial e as injustiças da guerra colonial portuguesa. Como era de esperar, o livro "caiu nas graças” da censura do regime, sendo os textos considerados “imorais” e “pornográficos”. As autoras foram chamadas a julgamento, contudo, devido à repercussão internacional do caso, este foi sendo, constantemente, adiado. Após ...

“United Colors Of”, por Companhia Bandevelugo.

Numa proposta de exposição performativa, projetada a partir da base pedagógica do Estado Novo, a Companhia Bandevelugo conduz-nos na ideia de explorar um museu, após a hora do seu fecho, de modo a desvendar os segredos que lá acontecem quando, normalmente, não estamos lá. Em colaboração com vários artistas, estes confrontam-nos com obras críticas, que vão desde o Portugal, do Estado Novo, e a sua herança pedagógica, até aos dias correntes e a nossa extrema dependência da tecnologia e da sua evolução, principalmente, nas gerações mais novas, como a minha. Um trabalho bastante interessante, com um tema atual, e a meu ver, importante a ser discutido. Em “produto bruto”, mostram-nos de qual direção a nossa sociedade veio e para onde se está a dirigir, fazendo-nos questionar se, realmente, é esse o caminho que queremos, ou se esse já está destinado, sem possibilidade de alteração. (Primeira publicação a 23 de abril de 2023, em  https://www.facebook.com/itsjoaojosesilva/ ).

”«IRENE», de Djaimilia Pereira de Almeida”, por Classes de Teatro do Teatrão.

Até que ponto uma mãe, ou um pai, arrisca-se por um filho? Qual é o limite dessa relação? (Se esse limite existir, claro.) São perguntas das quais, pessoalmente, ainda não consigo formular uma resposta genuína, pois, até à data, não passei pela experiência de ser pai. Contudo, pergunto-me até que ponto somos capazes de arriscar a nossa integridade física ou psicológica, por um filho. Então, e se, esse mesmo filho, tenha desaparecido pouco tempo após ter nascido? A entrega dos pais pela procura desse “fruto” tem a mesma força? Pessoalmente, considero que cada caso é um caso. Djaimilia Pereira de Almeida apresenta-nos, nesta peça, Irene, uma mulher que lhe vê ser tirada dos braços, após o nascimento, a sua criança, partindo em aventura de Luanda, sua terra, para Lisboa. Na capital portuguesa, confronta-se, incessantemente, com a procura de um filho apenas pelo instinto, pois não sabe a sua feição, além das consequências da sua decisão de mudança de vida repentina e radical. Inser...

"Cartas da Guerra (61 - 74)", por Ricardo Correia.

Os anos de 61 – 74 do século passado, são lembrados por muitos compatriotas como tempos de muita opressão, receio, desconfiança e muitos outros sinónimos associados ao sentimento de viver numa ditadura. Este período exato corresponde à duração do último grande conflito em que o nosso país esteve diretamente envolvido, a Guerra Colonial Portuguesa, ou também conhecida como, Guerra do Ultramar. Patrocinada pelo regime vigente, numa tentativa de impedir a independência das suas colónias em África, resulta num grande prejuízo para Portugal, sendo o maior deles todos, o transtorno na vida dos seus cidadãos. Apoiado na ideia de escrever, em tempo corrente, uma carta a seu pai que esteve mobilizado na Guiné-Bissau, de 73 – 74, Ricardo Correia, criador e encenador deste projeto, constrói um espetáculo documental a partir de relatos de ex-combatentes, além do trabalho de investigação de Joana Pontes sobre trocas de correspondência dos mesmos com as suas famílias, durante os treze anos de conf...

“«Trilogia de Alice», de Tom Murphy”, por A Escola da Noite.

“The Alice Trilogy”, nome original da obra do dramaturgo irlandês Tom Murphy, teve a sua estreia no Royal Court Theater, em Londres, em novembro de 2005. Quase dezoito anos depois, a peça volta a ser apresentada, mas desta vez com estreia absoluta em Portugal, e em português, com tradução de Paulo Marques Dias, no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra, espaço de residência da companhia A Escola da Noite. Na celebração dos seus trinta anos, a companhia convidou o encenador Nuno Carinhas como “escritor cénico” para este trabalho. Murphy apresenta-nos Alice. Mãe, dona de casa, casada com um banqueiro de sucesso, esta mulher é exposta em três momentos da sua vida, nos quais revela os seus pensamentos, reencontros e reflexões. Sem pudor, somos confrontados com esta “viagem interior” e desabafo da personagem, num espaço de partilha, que por momentos, incentivando-nos a fazer o mesmo. Novamente, A Escola da Noite apresenta um trabalho criativo muito interessante, com uma equipa de e...

“«Rei Ubu», de Alfred Jarry”, por TEUC.

Escrita por um dos pioneiros do Teatro do Absurdo, Jarry cria esta fantástica peça de teatro, em cooperação com os seus colegas de escola, com apenas 15 anos. Rompendo com os padrões dramatúrgicos da época, apresenta cenas de um mundo imaginário bastante dinâmicas e divertidas, ao mesmo tempo recheadas de crítica aos comportamentos de poder na nossa sociedade, tornando-a intemporal.   Inserida na “XV Semana Cultural da UC”, o TEUC põe-na em palco sobe criação coletiva, com direção de Hugo Inácio. Um trabalho bem pensado, com opções cénicas muito interessantes, cativando o público do início ao fim. Simultaneamente, arrancam-nos várias gargalhadas com o percurso bizarro de Ubu, para se tornar o Grande Rei da Polónia! “Merdra!”. (Primeira publicação a 16 de março de 2023, em  https://www.facebook.com/itsjoaojosesilva/ )

"As intermitências da morte", por Cooperativa Bonifrates.

"A Morte", ou simplesmente, "morte", mantém-se na nossa atualidade como um tema que deixa muitos de nós desconfortáveis ao procurar desvendar o seu significado e as suas consequências. A partir do romance de José Saramago, sendo a peça intitulada com o mesmo nome da obra, a Cooperativa Bonifrates, com a adaptação dramatúrgica de João Maria André e a encenação de João Paulo Janicas, levam a palco uma das perspectivas de Saramago de como seria o nosso país se a morte deixa-se de ter efeito nas pessoas. Quais seriam as suas reações? Quais os problemas políticos e sociais que iriam emergir, ou realçar? Para além, da fantástica história de amor entre a própria morte e um dos seus condenados. Considero que o grupo apresentou um trabalho interessante, utilizando elementos em cena, mais especificamente elementos digitais, que me chamaram à atenção pela positiva. Contudo, sinto que a duração da apresentação é um pouco exagerada. A uma certa altura do espetáculo, senti-me...

"Os qu'emigraRAM", por OITO - Oficina de Ideias das Terras do Oeste.

Muitos de nós têm o instinto natural de se libertarem das suas raízes e explorarem os segredos escondidos pelo mundo fora. Outros… fazem-no por necessidade, muitas vezes, para conseguirem dar uma vida melhor aos que mais amam. Mas só os que vão é fazem sacrifícios? E os que ficam, não têm a mesma coragem? Com base numa ideia de Ricardo Brito, em criação com João Paiva, Sara Cíntia e José Gregório Rojas, constroem um espetáculo a partir de testemunhos, nos concelhos da Calheta e Ponta do Sol, daqueles que partem e dos que veem partir. Uma peça profunda, com partes cómicas pelo meio, inspiradas no comportamento popular madeirense, contudo, bastante real. Já tive a oportunidade de estar no lugar de espetador, neste espetáculo, mais do que uma vez, e a cada uma delas, tenho reações e sensações distintas, ou por ter conhecer histórias semelhantes, ou por estar a viver algo parecido, fazendo-me querer ver outra, e outra vez. Além do mais, esta produção permite dar a conhecer aos madeir...

"Tempo Limite" por Teatro do Avesso.

Tic...tac...tic...tac... O relógio não para! Em algum momento das nossas vidas, já desejámos estar a sós com uma certa pessoa e conseguir desabafar os mais profundos pensamentos. Mas quais seriam as reações? Estaríamos preparados para escutar, verdadeiramente, TUDO o que o outro tem para dizer? E ou outro, também estaria preparado? Este espetáculo, escrito e encenado por Pedro Araújo Santos, expõe-nos o reencontro de um casal, que após uma situação bastante atribulada, têm a oportunidade de se confrontarem e "colocarem em pratos limpos" situações de um passado mal resolvido. Uma apresentação muito intensa, que nos faz pensar quais seriam as escolhas que tomaríamos se estivéssemos na mesma situação. Faria diferente, igual, ou pior? Quais são os meus limites? A única coisa certa nisto tudo, é que o relógio não para! Tic... tac... tic... tac... (Primeira publicação a 5 de fevereiro de 2023, em  https://www.facebook.com/itsjoaojosesilva/ )

"«Embarcação do Inferno», de Gil Vicente", por A Escola da Noite e Cendrev.

Revivendo uma das grandes peças do "pai do Teatro português", as duas companhias convidam-nos a assistir esta fantástica história, com encenação de António Augusto Barros e José Russo. Apesar de ser uma das peças que mais vezes foi posta em palco em Portugal, senti o mesmo entusiasmo de como se a estivesse a ver pela primeira vez. Ainda que o linguajar do séc. XVI dificultasse a compreensão de certas partes do texto, considero que a mensagem que Gil Vicente quis passar na sua época, foi igualmente transmitida com sucesso. A encenação dinâmica e apelativa com a adoção de abordagens cénicas contemporâneas, conquistou do público os merecidos aplausos de pé. Um trabalho muito bem conseguido por todos os membros envolvidos no projeto. (Primeira publicação a 15 de janeiro de 2023, em  https://www.facebook.com/itsjoaojosesilva/ )

"Visita encenada «PRIMAVERAS ESTUDANTIS»", por Graça Ochoa.

Numa proposta de fazer repensar como era viver e estudar na época da ditadura em Portugal, Graça Ochoa, apresenta-nos a partir da exposição «Primaveras Estudantis: da crise de 1962 a 25 de Abril», uma explicação dinâmica e bastante esclarecedora, sobre alguns dos acontecimentos, como personalidades, que marcaram aquela época de revolta dos estudantes contra o regime.  Um dos momentos que mais me marcou nesta visita, foi mesmo ao terminar, após ter sido exposto a toda esta informação e energia revolucionaria, poder observar através de uma parede envidraçada a cidade de Coimbra, foi uma sensação incrivelmente arrepiante e emocionante.  (Primeira publicação a 15 de janeiro de 2023, em https://www.facebook.com/itsjoaojosesilva/ )