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“Crendices - Quando o Medo Vem das Crenças”, por 4 Litro (Realização: Roberto Assis) | COMENTÁRIO: Luís Rodrigo

Aqui encontramos uma obra diferente daquilo a que o grupo 4 Litro habitualmente nos habituou. A sua origem está nas crenças populares madeirenses, das quais muitos já devem ter ouvido falar: a "Feiticeira". O argumento foi escrito pelo próprio grupo, enquanto a realização foi tanto dos 4 Litro como de Roberto Assis. 

Algo que é importante realçar e que fizeram questão de mencionar na divulgação do filme é o facto de se tratar de uma obra genuinamente madeirense. Ao contrário do que acontece noutros países, Portugal não tem uma indústria cinematográfica propriamente dita e são poucos os projetos que chegam a ver a luz do dia. Esta situação é ainda mais grave nas ilhas, tanto na Madeira como nos Açores. Acho importante a realização de trabalhos autónomos por parte dos próprios artistas que nasceram e vivem lá. Independentemente da opinião individual de cada espectador ao assistir ao filme, é necessário louvar o mérito e o trabalho de todos aqueles que transformaram Crendices de uma ideia escrita num papel num filme. 

Ao meu ver, a escolha do tema foi bastante interessante por vários motivos, nomeadamente o tema em si, que é muito característico do povo madeirense, conhecido pelas suas tradições supersticiosas. O tema abre caminho e asas à imaginação e ao humor absurdo dos 4 Litro. Esse humor continua presente em "Crendices", mas é importante salientar que neste filme o tom é bastante mais sóbrio. Não se trata apenas de humor, mas sim de uma mistura de terror, drama e comédia. Os atores do grupo continuam presentes, mas ocupam agora o lugar de personagens secundárias. Claro que o grande atrativo deste filme continua a ser o humor dos personagens dos "4 Litros". Ao estar sentado no meio da plateia, sentia-se a sala a rir sempre que os seus personagens estavam em cena; as suas vozes engraçadas e as circunstâncias absurdas em que se envolviam eram os pontos altos. Confesso que fiquei curioso para saber qual seria a reação do público noutras salas. Como reagiria o público em Lisboa? Seriam capazes de entender as piadas? Achariam piada? Será esta obra tão enraizada nas suas próprias raízes que quem é de fora não compreende o seu apelo? 

A narrativa do filme gira em torno de um drama familiar, que constitui o seu ponto fulcral. Claro que as superstições madeirenses estão presentes, mas apenas complementam o drama existente. Temas como um pai abusivo, uma mãe submissa e a estranha sensação de nunca ter pertencido àquela família. 

Porém, estes temas acabam por ser rasos: nunca se chega a conhecer realmente aquela família, a não ser numa perspetiva externa. Além disso, ao longo da narrativa, há algumas pontas soltas: mortes que acontecem fora de cena e personagens que não têm muito tempo de tela. Acontece muita coisa ao longo do filme, mas há pouco tempo para a sentir de facto. Algumas personagens não passam de caricaturas, devido ao pouco tempo de desenvolvimento. Na minha opinião, não há nada de errado com esta história ou com as escolhas nela feitas, mas sinto apenas uma falta de ligação emocional com o filme. Sinto que ganharia algo se houvesse mais tempo para estar naquele universo e conhecer aqueles personagens a fundo. 

Outros aspetos técnicos, como a iluminação e o som, complementam lindamente o filme. Desde o início até ao fim, existe uma camada sonora muito presente que nunca permite ao espectador descansar verdadeiramente. O som da trovoada, a chuva, os efeitos sonoros e a música contribuem para criar uma atmosfera tenebrosa. A iluminação enfrenta o desafio de iluminar várias cenas noturnas, o que não é fácil, sobretudo quando os personagens se encontram no meio da rua. Em alguns planos, é possível ver o reflexo da iluminação das luzes nos óculos e nos telemóveis. Gostaria de ver uma iluminação com mais sombras duras e contrastes nos personagens. Algo que é feito no filme Godfather (1972), de Francis Ford Coppola, onde se utilizam sombras nos olhos dos personagens para lhes conferir uma natureza obscura. 

Ao ver o filme, sinto que houve, acima de tudo, um enorme carinho por toda a cultura madeirense. Isso permite ao público atual conhecer e revisitar um pouco das suas origens. Um passado que pode estar um pouco esquecido, mas com uma grande riqueza cultural. Acho que este desafio foi muito interessante e que seria uma boa aventura para o grupo 4 Litro contar as suas histórias no grande ecrã.

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