1972. Nesse ano, em Portugal, os dias ainda eram controlados pelo Estado Novo (mal se sabia que esses tempos estavam a chegar ao seu término). Na mesma época, é publicado o livro «Novas Cartas Portuguesas» por Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa. “As Três Marias”, como ficaram conhecidas, têm como inspiração o romance epistolar, «Cartas Portuguesas», publicado no séc. XVII, posteriormente, atribuído à freira Sóror Mariana Alcoforado. Incorporando vários tipos de fragmentos, como cartas, poemas, ensaios, entre outros, criticam a condição da mulher e o poder do patriarcado católico, enquanto denunciam situações relacionadas à repressão ditatorial e as injustiças da guerra colonial portuguesa.
Como era de esperar, o livro "caiu nas graças” da censura do regime, sendo os textos considerados “imorais” e “pornográficos”. As autoras foram chamadas a julgamento, contudo, devido à repercussão internacional do caso, este foi sendo, constantemente, adiado. Após a Revolução dos Cravos, a sentença, finalmente, é apresentada e as escritoras são ilibadas.
Após 50 anos do lançamento do livro, o coletivo artístico Os Possessos, decide homenagear aquela que é considerada a “primeira causa feminista internacional”, apresentando-nos a história, adaptada para palco, por Catarina Rôlo Salgueiro e Leonor Buescu, com as interpretações de Ana Baptista, Catarina Rôlo Salgueiro e Rita Cabaço.
Um espetáculo com uma mensagem muito forte, apresentada de forma clara e
emotiva, utilizando elementos e perspetivas cénicas muito interessantes. Este,
é um daqueles espetáculos que o tempo passa a correr de tão ligados que estamos
na história a ser contada que, tendo oportunidade, voltaria a ver como muito
gosto.
Quero realçar que a imagem de ver o Teatro Académico Gil Vicente quase cheio, num dia tão especial como é o 25 de abril, foi das cenas mais bonitas que pude presenciar nos últimos tempos. VIVA A LIBERDADE!
(Primeira publicação a 26 de abril de 2023, em https://www.facebook.com/itsjoaojosesilva/)
Comentários
Enviar um comentário