Os anos de 61 – 74 do século passado, são lembrados por muitos compatriotas como tempos de muita opressão, receio, desconfiança e muitos outros sinónimos associados ao sentimento de viver numa ditadura. Este período exato corresponde à duração do último grande conflito em que o nosso país esteve diretamente envolvido, a Guerra Colonial Portuguesa, ou também conhecida como, Guerra do Ultramar. Patrocinada pelo regime vigente, numa tentativa de impedir a independência das suas colónias em África, resulta num grande prejuízo para Portugal, sendo o maior deles todos, o transtorno na vida dos seus cidadãos.
Apoiado na ideia de escrever, em tempo corrente, uma carta a seu pai que esteve mobilizado na Guiné-Bissau, de 73 – 74, Ricardo Correia, criador e encenador deste projeto, constrói um espetáculo documental a partir de relatos de ex-combatentes, além do trabalho de investigação de Joana Pontes sobre trocas de correspondência dos mesmos com as suas famílias, durante os treze anos de confronto.
A peça, para além de expor a nós, gerações mais novas, vários factos desconhecidos sobre a guerra, possibilita um espaço de debate e de desbloqueio de certos “silêncios” que continuam mantidos dentro de cada soldado, pelas mais diversas razões.
Uma produção muito interessante, dinâmica e recheada de crítica política. Realço a seleção musical e a sua adaptação para cena, como também a cena final, que num bonito momento de partilha, enche o coração de cada espetador. No entanto, saio com algumas dúvidas quanto à opção da penúltima cena (compreendo o sentido e crítica, mas acho que desconecta com o resto da peça) e com a dificuldade de compreensão de certas falas ditas em simultâneo, muito por causa dos microfones.
(Primeira publicação a 30 de março de 2023,
em https://www.facebook.com/itsjoaojosesilva/)
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