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“«Na República da Felicidade», de Martin Crimp”, por Teatro da Rainha.

Uma obra impactante, crua, crítica e que nos faz rir da nossa própria precariedade. O dramaturgo britânico, Martim Crimp, ironicamente, intitula a sua obra de “Na República da Felicidade”, mas esta última palavra, “felicidade”, é algo muito escasso na peça. Possivelmente, a meu ver, podemos associar a “felicidade” à perceção do funcionamento das engrenagens da vida, ou seja,  como funciona o mundo que nos rodeia. Com palavras pouco cordiais, incisivas e duras, propõe um jogo cénico fora do tradicional, dividido em três atos, nos quais expõe a dureza, a precariedade, os defeitos e as utopias da nossa sociedade ocidental, num nudismo, por vezes cómico, mas arrebatador. 

Esta produção teve como responsável pela tradução e dramaturgia, Isabel Lopes, a composição musical ficou a cargo de Carlos Alberto Augusto e a encenação a mando de Fernando Mora Ramos. 

Foi a minha primeira interação com o trabalho de Martin Crimp. Achei interessante a composição da sua obra, a divisão da mesma em três formatos bastante diferentes uns dos outros (narrativo, jogo coral e absurdo) e a incorporação dos momentos de cantares brechtianos. 

Reconheço o trabalho investigativo e compreendo a tomada de certas opções, contudo, pessoalmente, considero o terceiro ato algo prescindível. Pelo o que pude perceber, a obra tem como referência estruturante, “A Divina Comédia”, de Dante, com os planos de Inferno, Purgatório e Paraíso. No entanto, o ato torna-se uma quebra muito abrupta no ritmo da peça, levando a que exista uma constante quebra de atenção por parte do público (algo também percetível pelo constante ruído produzido pelas cadeiras a se mexerem). Creio que os dois primeiros atos, apesar de serem bastante diferentes um do outro, existe algo que os liga, ou seja, complementam-se. Já o terceiro ato não traz nada de novo em comparação ao segundo. Não sei se numa outra formação estrutural poderia funcionar. Tanto o ato I e o II são bastante estimulantes, a nível de intenções, como de ritmo. No Ato III, o público já está com a cabeça em cansada de tantos "clicks" e a cena torna-se algo redundante.

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