Tive o prazer de poder voltar à sala de espetáculos do Teatro Académico Gil Vicente (TAGV), não para assistir a uma peça de teatro, mas sim para ver um filme. Não é a primeira vez que o faço neste espaço, tendo-o experienciado com os filmes “Os Fabelmas”, de Steven Spielberg e “A Baleia”, de Darren Aronofsky - ou seja, filmaços!
Seguindo a tradição de grandes obras cinematográficas, existiu a possibilidade de assistir um dos filmes mais “badalados” e comentados nos últimos tempos. A produção do realizador brasileiro, Walter Salles, “Ainda Estou Aqui”, conta a história da reinvenção, superação e luta de Eunice Paiva, esposa de Rubens Paiva, ex-político do partido trabalhista, após estes serem alvos do olhar impiedoso do regime ditatorial militar brasileiro. Mãe de cinco filhos, vê-se obrigada a assumir as rédeas da família após a sua vida lhes desafiar com uma volta de 180 graus.
Um filme duro e emotivo, que nos coloca na realidade de medo e suspeita constante de um regime autocrático. Um elenco incrível, com um trabalho de interpretação muito interessante, com jogos de silêncios que incrementaram um estado de tensão no espetador de forma incrível.
Devo destacar o magnífico trabalho de duas gigantescas atrizes: Fernanda Torres e Fernanda Montenegro - como diz o povo e com razão, “tal mãe, tal filha”. A componente do silêncio que ainda agora descrevi, algo difícil e minucioso de compreender e aplicar na interpretação, é fortemente dominada por ambas - não me surpreende as nomeações e vitórias das mesmas a grandes prémios. Quero realçar a aparição de Fernanda Montenegro, apesar de curta e sem uma única réplica, a sua expressividade furava a lente da câmara e o ecrã do cinema e nos apertava as gargantas. Em traços gerais, uma produção espetacular.
É importante destacar que a realização, como já referido, esteve sob coordenação de Walter Salles e o roteiro sob o olhar de Murilo Hauser, Heitor Lorega e Marcelo Rubens Paiva - filho do casal Eunice e Rubens Paiva.
Aproveito para deixar um comentário em relação à sala de espetáculos do TAGV. Apesar da sua boa dimensão e qualidade na componente técnica, considero que a mesma peca no que diz respeito às suas cadeiras, principalmente, quanto à posição em que estão distribuídas. Como as mesmas estão simetricamente paralelas umas às outras e a inclinação da sala não é muito acentuada, é normal que um espetador de grande dimensão ao se sentar na cadeira da frente, irá bloquear, parcialmente, a visão do espetador que estiver atrás - confesso que é algo bastante incomodativo. Um problema estrutural que afeta a experiência do espetador, principalmente se a sala estiver com a lotação em bons números.
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