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“Crocodile Club” por Colectivo 84 e Teatro Oficina.

O formato de teatro fantasmagórico volta às tábuas do palco, mas, desta vez, mesclado com o cinema de terror. Duas linguagens que se conjugam numa peça em que um grupo de amigos, num retiro de fim de semana, é assombrado pelos extremismos do quotidiano. A mescla entre o gore e a ascensão da extrema-direita na Europa. Dois tópicos que se complementam e, consequentemente, levam à inquietação do espírito. O que virá a partir daí? 

Esta obra teve como responsável pela sua dramaturgia e encenação, Mickaël de Oliveira. 

Um trabalho que suscita ao público uma mistura de sensações. Pessoalmente, gostei desta conjugação. Um texto que prende os espectadores, não só pelos temas abordados, como também pelo modo em que está construído, um trabalho interpretativo igualmente atrativo, contracenas dinâmicas (mesmo nas discussões mais estáticas) e a implementação de vários estímulos em simultâneo (tanto presenciais, como em vídeo). 

Destaco a cenografia, de autoria de Pedro Azevedo, com a construção do piso de uma casa em cima de palco. Uma frente visível para o público e uma outra continuação percetível através do acompanhamento constante de Fábio Coelho, que captava milimetricamente em vídeo as movimentações e expressões dos intérpretes, ao mesmo tempo que criava um ambiente distinto com  imagens de pormenores do cenário. 

A sonoplastia e composição musical de Sérgio Martins e Rui Lima, acrescentou uma outra densidade ao ambiente proposto. O que também ajudou nessa criação foi o desenho de luz de Rui Monteiro, que juntos, levaram o público para uma outra dimensão. 

No geral, gostei do modo como apresentaram as cenas mais sangrentas e macabras, de modo bastante subtil, mas, ao mesmo tempo, de forma eficaz. Volto a destacar o equilíbrio entre a representação presencial e a captação em vídeo. Duas linguagens que resultaram muito bem sem que nenhuma se sobrepusesse à outra. Os meus parabéns a toda a equipa pelo resultado conseguido!

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