Após um arrastado período de pausa, retorno ao Diário com um clássico de Gil Vicente. “A Farsa de Inês Pereira” é uma comédia satírica em que nos é desvendada a história de Inês Pereira, jovem protagonista da história, e das suas complicadas tentativas de junção conjugal.
A procura do lucro através de arranjos conjugais, aparências que escondem os reais feitios e ações e a manipulação perante proveito próprio. Estes são alguns dos temas que Gil Vicente procurou criticar com a sua obra. Já diz a expressão e bem: “ridendo castigat mores”.
Esta produção contou com o texto original de Gil Vicente e com encenação de Onivaldo Dutra Oliveira.
Já não se consegue contar pelos dedos quantas vezes esta peça já ganhou vida nos palcos de todo país – e não só. A Contigo Teatro, companhia com forte trabalho no setor educacional, decidiu que a apresentação do espetáculo seguisse com o linguajar original do século XVI. Uma opção nobre, mas, ao mesmo tempo, perigosa pela dificuldade na compreensão do enredo e pela propícia desconcentração do público – algo que, ao meu ver, aconteceu.
Notei que o espetáculo era acompanhado de um “tom sombrio”, tanto pelas opções de cenografia, de responsabilidade de José Luís Fernandes, como também na composição musical, através do trabalho de Márcio Faria. Uma opção interessante, com sentido lógico e que ao mesmo tempo criou-me certas dúvidas.
Começo pelo trabalho de cenografia, do qual elogio a idealização da figueira e da restante estrutura que a acompanha – como a cama de Inês. Por sua vez, questiono a estrutura metálica por cima da árvore. Confesso que com as suas diferentes ondulações não compreendi o seu significado. Por momentos, pensei que fosse um espelho que incorporasse o público na cena, pelo ângulo em que estava colocado, contudo, esse efeito ficou muito aquém.
Em relação à componente musical, devo admitir que até ao momento em que escrevo este comentário, a opção musical tão “pesada” para o momento do baile ainda me cria algumas “comichões”. Com isto não quero contestar a qualidade da opção, apenas partilho a minha sensação como espetador. Um contraste muito acentuando entre a sonoridade e a expansão dos movimentos.
Para finalizar, partilho uma opinião da sessão a que assisti. Tive de oportunidade de ver o espetáculo numa “sessão para escolas” e confesso que fiquei bastante impressionado com o comportamento dos jovens espetadores. Apagam-se as luzes para iniciar o espetáculo e os instintos selvagens dos espetadores elevaram-se e um uivar e assobiar ensurdecedores que dominaram por um longo período de tempo. Uma falta de ética e de saber estar que, até à data, nunca havia assistido com tal nível. Mais uma prova que deve levar a todos os artistas e profissionais da educação a repensar como devemos proceder na criação e ensinamento de públicos.
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