Uma vez mais, textos concebidos na Grécia Antiga ganham empatia e leitura no contexto social e político atual. Temas intemporais que reforçam a ideia de “círculo vicioso” das problemáticas da nossa Sociedade.
A estrutura artística Cassandra, sob coordenação de Sara Barros Leitão, aproxima a realidade das mulheres da obra de Ésquilo, que fugiram à procura de asilo, do Egito para a Grécia, com a dos atuais imigrantes que atravessam o Mar Mediterrâneo à procura de condições melhores nos países europeus. Viagens repletas de intempéries que, à sua chegada, enfrentam o choque direto com as barreiras ideológicas e culturais, estipulando assim uma comunicação dependente de tradução. Segundo a própria estrutura, o espetáculo procura e passo a citar: “uma reflexão sobre o próprio projeto Europeu, sobre fronteiras, sobre pactos de hospitalidade, acolhimento e integração.”.
Com referido anteriormente, Sara Barros Leitão é a responsável pela dramaturgia e encenação, com assistência de encenação de Inês Sincero e coordenação de pesquisa de Elizabeth Challinor.
Desde já, quero destacar a imponente cenografia, de autoria de F. Ribeiro. Elementos aos quais fiz as seguintes leituras: a rutura das nações com o mastro em caimento (curiosamente, para a direita) e a bandeira em completa inércia, a rede de pesca como barreira/muro que o mar instala entre os povos e a mesa de escritório com um certo ângulo que, dependo da posição que se observe, pode demonstrar a tendência de ascensão ou declínio – provavelmente de uma ideologia política.
Confesso que saí do espetáculo inquieto. Uma peça de teatro político – diria mais, “teatro reivindicativo” – que, pessoalmente, não é o meu formato predileto, todavia admito a sua relevância no contexto atual em que vivemos.
Senti uma certa desconexão com o monólogo do entregador. Creio que a sua extensão e o tom monocórdico proporcionaram esse estado. Um outro momento, foi no excerto da obra de Ésquilo. A meu ver, tal se deu por existir um distanciamento com a linguagem da obra original.
Em contrapartida, os diálogos, dinâmicos e vivos, sustentaram a atenção do público.
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