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"Colonia e Vilões", por Leonel Brito. COMENTÁRIO: Luís Rodrigo

 

Colonia e Vilões

(1977)

         

          Colonia e Vilões é um documentário realizado pelo Leonel Brito na região da Ilha da Madeira. O próprio título já expõe o seu tema principal, sendo ele o contrato de colonia que, já muito afetava a população rural madeirense. As suas origens remontam desde à época medieval e durou até o ano de 1977. O documentário expõe a dura realidade que se vivia na época e dando voz à população local denunciando a tremenda desigualdade que se vivia.

          Outro aspeto importante a referir é a forma como foi recebido na própria ilha. De todas as pessoas que este documentário deveria ter alcançado, as mais importantes seriam os próprios madeirenses. Ao que infelizmente foi recebido com barreiras, sendo esse resultado de anos de turbulência que surgiu após a Revolução dos Cravos.


“Exactamente por causa deste clima politicamente instável, Brito refere que Fernando Matos Silva (através da cooperativa Cinequipa), alguns meses antes, tentara rodar um documentário na ilha mas fora expulso mal aterrara por ser considerado pelo poder local um “cubano”  

Colonia e Vilões (1977) de Leonel Brito por Ricardo Vieira Lisboa 


          Ao meu ver, este tipo de documentário ou arte em geral entra numa categoria específica, visto esta arte ter sido feita logo após o 25 de Abril. A música de José Afonso (Zeca), “Grândola, Vila Morena”, não é apenas uma música, mas a voz de uma geração que esteve suprimida durante quarenta e oito anos. O mesmo pode ser dito sobre o documentário “As Armas e o Povo”. As pessoas nas ruas, o realizador Glauber Rocha a fazer as entrevistas e a frase mais bonita de todas.


Glauber Rocha: Você está disposto a lutar pela liberdade do povo?

José Francisco Catarino: Hei-de lutar até à hora da morte.”


          Dito isto o documentário mostra de forma abrangente, mas bastante inteligente os acontecimentos mais importantes da história da Ilha da Madeira. Temas como as capitanias, o comércio do açúcar, o vinho, a influência inglesa e do turismo. Além disso existe o uso de excertos de outros filmes, reportagens e até pinturas. A grande porção do documentário é feito através de entrevistas e o uso do narrador.

          Ao longo do filme, existem outros aspetos muito interessantes que permitem fugir ao estereótipo “talking heads” pelo qual o género ficou conhecido. Um desses elementos é demonstrado na cidade do Funchal, através da sobreposição do som, da aceleração da imagem e da utilização de objetivas com zoom de maneira a comprimir a imagem. Na minha opinião, foi uma forma muito interessante de retratar, a presença crescente do turismo na ilha.

Pouco mais posso a acrescentar, a não ser a recomendação de conhecer a história do povo madeirense e das suas lutas.

“São eles que fazem os depoimentos, páginas vivas do seu dia-a-dia, dobrados sobre as terras de um senhorio que as chamou suas desde tempos imemoriais, não só em Machico, mas na Ponta Delgada, São Vicente, Faial, Ponta do Sol, São Martinho e muitas outras freguesias rurais.”

“COLONIA E VILÕES” a película perdida e finalmente achada!, Padre Martins

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